01 Novembro 2009

O Gillette.

Depois do sucesso que a crónica anterior (sobre gebos) teve, com um visado a acusar-se, e antes de voltar a escrever mais algumas histórias sobre gebos (um filão interminável!), vou fazer uma interrupção nos gebos e falar de um colega que de gebo não tem nada, embora tenha levado algum pessoal que o não conhecia a pensar que sim. E digo isto porque foi um colega que nas primeiras 4 matrículas apenas fez uma cadeira (informática) e isto porque era feita com um trabalho. Segundo soube, ainda foi para a defesa do trabalho barafustar com os professores, mas acabou por fazer a cadeira, ao contrário dos colegas de trabalho, que não barafustaram… Era um indivíduo com uma forte pancada. Entrou para Coimbra com 16 anos (não sei como, mas é verdade; terá qualquer coisa a ver com o facto de ter estado um tempo a estudar na Guiné Bissau) e era ainda um garoto (daí ter tido necessidade de “crescer” um bocado antes de “arrancar” imparavelmente para a conclusão do curso, o qual tirou sem chumbar a partir da sua quinta matrícula). E o curioso é que, normalmente, o pessoal “marrava” para fazer as cadeiras e passado um tempo já não nos lembrávamos de quase nada, mas o gajo não: podiam passar dois ou três anos sobre a data em que tinha feito a cadeira que, se encontrava alguém a estudar o gajo explicava tudo como se tivesse feito o exame na véspera. Lembro-me que me ajudou bastante em várias cadeiras, com a sua memória “milagrosa”! E a Econometria, na véspera do exame, ditou-me, juntamente com o Marralheiro, a cábula milagrosa que me permitiu fazer a cadeira sem perceber nada daquilo!
Pois este nosso amigo, quando era caloiro, era uma criatura um tanto ou quanto sinistra: apesar de não ser um indivíduo alto (e ainda estava a crescer, pois, como disse, só tinha 16 anos) era uma figura que me causava alguns arrepios, pois vestia sempre de preto, com umas botifarras enormes (umas Doc), cabelo esquisito e era muito pálido. Dizia que era Gótico! Era criatura de quem eu não gostava e evitava aproximar-me. Ora, num belo dia, resolvemos fazer trupe, pois um colega disse que havia um caloiro que costumava ir ao Madeira à noite e queria que o rapássemos. Assim fizemos e fomos fazer uma espera à porta do Madeira, onde o nosso colega saiu da trupe e foi confirmar se o caloiro ainda lá estava, o que sucedia. Só que o caloiro nunca mais saía e já estávamos a apanhar seca, mas se sabíamos que lá havia caloiro, não podíamos zarpar. Tivemos então a ideia de o nosso colega que o conhecia sair da trupe e ir lá avisá-lo que se estava a formar trupe na Republica Boa-Bay-Ela; o resultado foi que o caloiro agarrou no fino, emborcou de um trago o que faltava e saiu do Madeira, para se pisgar; foi o que queríamos! Chegado cá fora, foi “caçado” e a sentença foi proferia por mim: rapanço! Assim fizemos, mas o caloiro até nem foi dos mais rapados porque, tendo sido abordado, cooperou e foi humilde. Qual não é a minha surpresa, no dia seguinte o caloiro aparece com a cabeça lisinha, lisinha, lisinha… Parece que chegou a casa (ao lar, ao pé do antigo ISCAC, nos Olivais) e pediu aos amigos para lhe raparem a cabeça à Gillette. Ficou o Gillette!
Lembro-me que uma vez, creio que na Queima, foi para o Parque e apanhou uma borracheira descomunal. Como na altura não havia telemóveis, quando nos perdíamos ou encontrávamos o pessoal à custa de andar às voltas no Parque, ou tínhamos que vir embora sozinhos. Já não sei se a situação foi a de não encontrar ninguém, ou se foi a de achar que já estava todo desgraçado e queria era ir para casa, nem que fosse sozinho, a verdade é que veio embora sem ninguém que o acompanhasse. Subindo a avenida Sá da Bandeira, não se sentiu em condições de continuar e decidiu dormir um bocadinho. Escolheu para o efeito, o Multibanco da Caixa Geral de Depósitos, pois até estava quentinho… E foi ali que acordou no dia seguinte, rodeado por pessoas que necessitavam de levantar dinheiro!
Em determinada altura, foi morar comigo para casa da minha tia. Nessa atura, tinha o hábito de sair todas as noites para ir beber uma cerveja ao Garden (bar ao lado da FEUC) e só voltava quando aquilo fechava. O engraçado é que apanhou esse hábito na época de exames, tendo como resultado a não realização de qualquer cadeira. E não adiantava eu e o Marralheiro o avisarmos, pois ele ia lá só beber uma cerveja e já vinha estudar! Certa vez a minha tia descobriu um resto de frango assado já com não sei quanto tempo debaixo da cama dele e aproveitou a deixa para o pôr na rua (aquilo foi a desculpa, pois o verdadeiro motivo era que ele não estudava nada e ela tinha medo que ele me desencaminhasse…).
O Gillette foi quase fundador do Coral. Se bem que não tenha sido fundador (pois esta foi fundada pela Irmandade das Sombras, da qual ele não fazia parte), esteve no primeiro ensaio e na primeira actuação. E foi com o Coral que ele foi à RTP, à Praça da Alegria, na altura apresentada pelo Manuel Luís Goucha. Lá pelo intervalo do programa, não sei como, o Goucha soube que ele tinha estado a viver na Guiné-bissau e que os pais ainda lá viviam. Decidiu então, em directo, pôr o Gillette a mandar abraços e beijos aos pais (a Praça da Alegria passava na RTP internacional). Disse então o Goucha que o Gillette queria mandar um recado aos pais e pôs-lhe o microfone à frente. O Gillette começou:
- Olá pai; olá mãe; olá Becas…
- Quem é a Becas? – interrompeu o Goucha.
- É a minha irmã mais nova.
Só que, nesse dia, estava lá a Fernanda Serrano que estava sentada à minha mesa e que tinha estado a falar da sua personagem na telenovela que estava na altura no ar na RTP e na qual havia uma tal Becas que era muito má e eu respondo, ao mesmo tempo que o Gillette, que a Becas era a da telenovela. Gerou-se lá uma enorme confusão, com toda a gente a rir, Goucha e Fernanda Serrano incluídos, e foi um fartote! Uma cowboiada desgraçada em directo! E o Goucha já não deixou o Gillette dizer mais nada em condições, tendo sido ele a mandar os beijos e os abraços do Gillette, que apenas teve tempo de dizer que devia estar a estudar, mas que tinha estado a estudar na véspera até tarde e que quando chegasse a casa ia voltar imediatamente para o estudo.
Foi também com o Gillette que fizemos a serenata mais fulminante que eu conheço. O nosso herói andava interessado, naquela altura, numa moça de geografia, de um grupo de raparigas que conhecêramos. Todas elas sabiam que ele andava interessado nela, inclusive a rapariga, mas ele era tímido e praticamente nem falava com ela. Decidiu então fazer uma serenata e lá fomos nós, o Coral, até às escadas do Quebra-costas (onde a moça morava) fazer a serenata. No fim da serenata a rapariga sai disparada de casa e atira-se ao pescoço do gajo e zás! Beijo na boca! Mas não foi namoro de longa duração.
Ainda na altura em que o Gillette era gótico, o meu irmão, que na altura trabalhava numa produtora de televisão, foi a Coimbra com uma moça que apresentava o programa e que era boa todos os dias (e de noite também). Não sei a que propósito, falou-se de fazer uma sessão espírita e fomos todos, a altas horas da noite, para o Convénus Mustinto, que já de si era uma casa tenebrosa, como já referimos em crónicas anteriores. Puseram lá as letras pelo chão o toca de meter um copo no meio, tudo sentado no chão, à luz de velas e com os dedos num copo. Lá começaram eles a pedir aos espíritos que se manifestassem; pediram, pediram, pediram e os espíritos nada. O Gillette, já a começar a ficar farto de os espíritos não se manifestarem, sai-se com um “espíritos das trevas, manifestem-se!”. Foi um fartote, tudo a tentar não desatar às gargalhadas, mas lá se perdeu a concentração e os espíritos das trevas ou dos infernos não quiseram nada connosco!
E pronto, aqui estão algumas histórias que me lembro do meu amigo Gillette (ainda hoje assíduo companheiro de patuscadas em Coimbra, na Guarda ou em Mangualde. E que saudades daquelas noites, nos tempos em que vivia na minha casa (já alguns tempos depois de sairmos de casa da minha tia, já na altura em que ele estudava e fazia as cadeiras todas), passadas a jogar monopólio até às 8 horas da manhã, depois de começarmos a jogar às 22 horas um jogo rápido que era só até às 23, depois até à meia noite, até à 1, até às 2… E lá ia uma noite de estudo por água abaixo!

24 Outubro 2009

A última Queima de Georgius Brandalius

Quando este blog foi criado pretendia-se que ele fosse o repositório da história da Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras. Com o decorrer do tempo ele excedeu esse objectivo inicial e passou a ser um arquivo das memórias Coimbrãs dos que foram membros dessa Tertúlia e é por essa razão que me atrevo aqui a discorrer sobre um dos momentos mais intensos da minha vida de Coimbra: a minha última Queima. Ou para ser mais preciso, e mais à frente compreenderão a razão para este pequeno "lapso", a minha Queima do ano em que fui Quintanista.
Alguém que se apaixona e que conhece as Tradições Coimbrãs percebe que há um determinado percurso que tem de realizar para melhor tirar partido do melhor que essas Tradições têm para oferecer. Quando, em Setembro ou Outubro de 1994, entrei no meu 5º ano do curso, preparei-me, pois, para usufruir dos muitos momentos altos que aquele ano teria para me oferecer. E se bem me preparei, melhor o fiz.
Tudo começou algures em Novembro, com o Cortejo da Latada. Nesse dia pela manhã comecei, como era prerrogativa dos Quintanistas, a usar as Fitas. Durante a tarde no Cortejo, o caloiro que eu apadrinhei nesse ano teve a missão de seguir à minha frente e chamar em altos berros a atenção aos populares que assistiam, dizendo: “Este é o meu padrinho, fulano de tal, e vai acabar o curso este ano; palmas para ele!!!”. E desatava a bater palmas, enquanto eu agradecia como se fosse um artista que acabava de interpretar uma canção no Coliseu frente a uma plateia delirante de 3 mil pessoas a aplaudir-me, ainda que não fossem mais do que meia dúzia – se incluirmos o caloiro – as que de facto o faziam. E assim se fez desde o largo D. Dinis até à beira rio onde baptizei o caloiro, como mandava a tradição.
Decorreu depois o ano lectivo em que, para usar as Fitas o máximo de vezes possível, usei ainda mais do que já era costume a Capa e Batina do que fizera em anos anteriores, para desespero dos muitos que não compreendiam esta atitude. Note-se, aliás, que segundo os estatutos da TTIS, o número mínimo de vezes que tínhamos de andar de Capa e Batina era 3 por semana, pelo que nesse ano eu terei usado entre 4 a 5 vezes por semana).
Até que, em Maio, como em todos os Maios daquele tempo e como em todos os Maios desde há dezenas anos se exceptuarmos aqueles em que a escumalha comunista o impediu com base nas suas convicções abjectas, lá chegou a Queima das Fitas, a que era a minha última Queima.
E nessa Queima das Fitas de Maio de 1995 fiz questão de usufruir dos momentos que são dedicados em particular àqueles que estão quase a sair. Na Quinta feira assisti à Serenata do topo da primeira escada da Sé Velha (primeira destinada ao público, porque as primeiras duas ou três eram para os artistas); na Sexta-Feira, no final da Noite de Economia, subi com os meus colegas de curso a palco para gritar os efe-erre-ás de encerramento da noite; no Domingo, na Garraiada, dei a volta de honra antes de iniciar a Garraiada e estive na arena a tourear os vitelos quando chegou o momento dos quintanistas aparecerem; e na Terça Feira desfilei já na condição de Cartolado.
Desta Queima tenho também uma das recordações mais ternurentas do meu percurso de Coimbra. Estávamos no Pinto a fazer o abastecimento e preparação para a Noite, creio até que era Sexta Feira, noite de Economia. Anunciei então que não iria ao Parque porque tinha intenção de ir até ao Sarau. A malta começou a dizer que não podia ser, que tinha de ir ao Parque e blá, blá, blá, até que eu lhes disse que não ía porque não queria gastar o dinheiro do bilhete, achava que era melhor esperar que o Sarau abrisse (isso acontecia sempre a dada hora da noite) e ir até lá. Foi então que toda aquela malta se juntou e cada um pôs uns trocos que tinha à mão para me pagarem o bilhete para ir para a Noite do Parque. Não me consigo lembrar de quem estava lá e quem contribuiu, mas era a TTIS e seus amigos em peso. Foi um gesto que nunca esqueci.
Resumindo foi uma Queima magnífica em que me alegrei euforicamente e nostálgica ao ponto de quase todos os dias (senão mesmo todos) ter chorado porque o fim do curso se aproximava e aquele mundo se fecharia para mim.
Esses muitos momentos de lágrimas foram, aliás, recordados várias vezes durante o ano lectivo de 1995/1996, ano em que (naturalmente por culpa dos professores que cismaram em querer ver-me Veterano), me vi obrigado a ficar em Coimbra a fazer algumas cadeiras para conseguir de facto acabar o curso.
Mas, apesar de ainda lá ter andado durante esse ano e de ter feito a Queima de 1996, continuo sempre a considerar a Queima de 1995, a Queima de Quintanista, a minha última Queima.

16 Outubro 2009

Histórias com gebos.

Apesar de ser impossível aqui contar todas as histórias demonstrativas da estupidez que reinava na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra (FEUC), tanto a nível de professores, funcionários ou estudantes (seria uma tarefa hercúlea, daria um livro maior que o “Em busca do tempo perdido”, de Marcel Proust), vou aqui tentar contar algumas das mais ricas pérolas dessa florescente “gebice” (se me permitem o neologismo) da FEUC.
Havia lá na faculdade um indivíduo que era um bocado atrasado (e um bocado é favor!). Mas parece que, de tão atrasado que era, tinha entrado na faculdade pelo contingente dos deficientes, o que é uma coisa extraordinária, pois uma coisa é ter-se uma deficiência física e aproveitar-se disso para passar a perna aos outros, e outra é ser-se deficiente mental e ter direito a passar à frente dos outros para tirar um curso superior, uma vez que, a meu ver (mas posso estar errado, claro!) os cursos superiores não deviam ser acessíveis a atrasados mentais, pois, supostamente, para se tirar um curso superior deveria ser necessário um pouco mais de inteligência do que a de alguém que tem um atraso, mas adiante… Claro que o desgraçado andou para lá a arrastar-se, apesar de ir às aulas e estudar, e só tinha feito, quando eu saí de lá, meia dúzia de cadeiras e das mais fáceis, andando-se sempre a queixar que os professores eram maus para ele e que havia sempre grandes complôs contra a sua pessoa, tendo, inclusivamente, escrito alguns desses complôs contra ele e algumas mentiras acerca de mim na net, mas também não é para falar disso que aqui estou agora. A verdade é que o gajo era tão burro que nem escondia que tinha entrado no contingente dos deficientes e, segundo era dado ver a todos, deficiência física ele não tinha nenhuma (pelo menos visível)… Ora, segundo me contaram, o tutor dele era o Joaquim Feio, o que fez com que um dia um colega meu tenha encontrado o Feio muito irritado, talvez no bar da FEUC. Ao falar com o meu colega, desabafou que estava naquele estado de nervos porque a mãe do rapaz tinha ido falar com ele a dizer que deviam facilitar um pouco a vida ao filho, pois o rapaz era um pouco deficiente, mas que, apesar de não dar para exercer certas profissões (e deu como exemplo a sua profissão) podia ser, por exemplo, caso tirasse o curso, professor! O que ela foi dizer e, ainda por cima, a quem! O Feio passou-se (e com razão) e não havia quem o conformasse! Até porque, cá para nós, se bem me lembro, a profissão dela era muito mais adequada a ser exercida por atrasados mentais (que o é, mas eu não digo qual a profissão) do que a de professor, embora eu possa dizer que ambas têm uma forte representação de indivíduos nessas condições (eu que o diga, que andei uns anos a estudar na FEUC e vi lá alguns deles e alguns até bem considerados e com currículos bem distintos…). Mas adiante, não quero agora falar dos Fortunas da FEUC.
Outra que me estou agora a lembrar com um gebo e com o professor Joaquim Feio foi também contada, pois não assisti. Passou-se esta num exame. Para quem não saiba, os exames do Feio tinham número máximo de páginas, pois o homem gostava muito pouco de palha e gostava que nos cingíssemos ao essencial. Por isso, salvo erro, não se podia exceder a folha de exame e não era permitido pedir mais folhas (ainda me lembro dos gebos que gostavam de dar palha a escreverem nas margens, nos cabeçalhos… Estúpidos!). Ora um dia estava lá um gebo qualquer a fazer um exame de uma cadeira do Feio e parece que o rapaz estava entusiasmado a escrever. Segundo conta quem viu, o rapaz escreveu, escreveu, escreveu e, a certa altura, pediu outra folha. O professor que estava a vigiar o exame disse que não tinha autorização para dar mais folhas, mas, perante a insistência do rapaz, disse que ia chamar o professor da cadeira. Instantes depois apareceu o Feio, que disse que era só uma folha e não havia excepções, mas que foi ter como indivíduo e pegou no exame dele para o ler. Parece que leu aquilo tudo e, no fim, com uma gargalhada de gozo pelas baboseiras que lá estavam e que prenunciavam um chumbo mais que certo para o estudante, virou-se para o professor que vigiava aquela sala e disse num tom jocoso: “Pode-lhe dar mais uma. Aliás, a este pode-lhe dar as que ele quiser!” e saiu da sala a sorrir. Mas o melhor (ou o pior, pois estamos a falar de grandes calhaus que passaram por aquela faculdade) ainda está para vir: é que o tal aluno recebeu a nova folha e, em vez de desistir pois já se vira que estava arrumado e que só tinha escrito asneiras, pegou na esferográfica (creio que usava uma esferográfica e não uma caneta) e continuou a escrever, a escrever, a escrever…
Continuando a falar de gebos, também me contaram uma história engraçada passada numa reunião do conselho directivo. Na altura estava-se a discutir a quem deveriam ser dadas chaves dos elevadores, pois os elevadores da FEUC deviam ser utilizados apenas por quem necessitasse e não por qualquer um; segundo consta, decidiram que deviam ser dadas umas chaves ao Sr. Carlos, do bar, e a pessoas com deficiência. Discutia-se então que tal e tal estudante necessitavam e alguém sugeriu que um professor que tem uma deficiência no andar (na altura não se falou da deficiência, falou-se mesmo no nome do professor – parece que é um tal que uma vez entrou na biblioteca a gritar “quem tinha sido o estudante que deixara o carro no lugar dos deficientes?!” e que era conhecido, junto de alguma malta, como o “cabeça de porco estúpido”). Nesta altura, o presidente do conselho directivo, que não posso dizer o nome mas que posso adiantar que tem falta de cabelo, se tem em grande consideração apesar de ser, talvez, um gebo desgraçado; e que não é pessoa de ter uma grande fortuna em termos de riqueza intelectual, saiu-se com esta: “Estamos a falar de deficientes físicos, não é?”.
Outra história com dois grandes gebos (um deles era de tal ordem que até lá ficou a dar aulas) passou-se quando eu era semi puto. Na altura, andava lá um gebo que, imaginem só, era tão gebo, tão gebo, tão gebo, que até tinha o apelido PESTE! Esse indivíduo andava sempre à futrica, pois era um naftalinoso de alto coturno, e, embora me pudesse desmobilizar caloiros se estivesse de capa e batina, a verdade é que nem a trazia, nem gostava que eu praxasse. Acontece que eu nunca liguei muito ao paleio dos naftalinosos e fazia o que me apetecia e na altura apetecia-me praxar, por isso praxava. Ora, certa vez, um amigo desse Peste (o tal que lá ficou a dar aulas) apareceu de capa e batina e desmobilizou-me o caloiro que eu estava a praxar, pois o gajo era quartanista. Tive que me calar e deixar a coisa assim. O tal Peste ria-se, o homem estava mais feliz do que se tivesse ganho o euromilhões. Só que eu, num momento de inspiração, vendo que o tal quartanista tinha casa para o botão na lapela (para fechar a batina em caso de luto) e sabendo que havia aí umas batinas manhosas compradas na “Toga”, lembrei-me de verificar se na outra lapela tinha o botão; e o gajo não tinha! Portanto, não estava na Praxe! Portanto, não podia mobilizar caloiros! Logo voltei a mobilizar o caloiro e, perante a indignação e humilhação dos dois gebos, deixei lá o caloiro meia hora a dizer ao gajo: “Oh doutor, desmobilize-me! Oh doutor, desmobilize-me!”.
Muito mais há para contar acerca dos muitos gebos que pulularam (e ainda pululam, certamente!) na FEUC. Acho que descobri um filão que vou explorar após mais umas crónicas tenho “no prelo” acerca de mais algumas figuras (não gebas) do meu tempo.

19 Agosto 2009

O Ribeirinha

O Ribeirinha entrou uns anos mais tarde que a malta da Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras. Durante o seu primeiro ano nem dei muito por ele, pois confesso que nem julguei que ele era caloiro, tal era a cara de descaramento que fazia quando eu chegava à mesa dos caloiros e que jamais pensei que um caloiro pudesse fazê-la.
O primeiro ano dele passou e nem me lembro de o “praxar” e, em boa verdade, nem lhe dava grande importância.
Comecei a reparar no gajo já no seu segundo ano, numas eleições, creio que para o núcleo de Economia; eu convidava para a lista caloiros do grupo dele para tentar arranjar votos e depois os gajos não faziam nada, não arranjavam votos nenhuns e ainda tinha que andar atrás deles para não se esquecerem de vir votar; nessas eleições a que não concorri, vi o Ribeirinha numa lista e a trabalhar (cacicar) que nem um doido e pensei que teria que o convidar mas era a ele. Nas eleições seguintes (para a DG/AAC) lá fui falar com ele e o gajo veio para a minha lista. A partir daí (já lá vão quase 10 anos) tornámo-nos amigos e ainda hoje temos uma relação muito próxima, sendo ele presença assídua na minha casa da Guarda ou, principalmente, nas patuscadas que vou fazendo em Coimbra sempre que posso, onde costuma ser um dos principais animadores das conversas pelo serão dentro, com as suas sempre acesas discussões com o seu “rival” do costume: o Gillette.
Ora, o Ribeirinha que me perdoe, mas hoje vou contar aqui algumas das suas histórias (algumas bem duras, mas ele que esconda este blogue da família ou das gajas que arranje – se bem que estas últimas não deviam tomar estas histórias em consideração para avaliar o Ribeirinha, pois cada um tem o seu passado e, no fundo, apesar de parecerem duras, estas histórias acabam por ser inocentes).
Parece que estou a ver o Ribeirinha no D. Dinis (DD), com a sua “bebedeira monstra”, com o nariz muito vermelho, com os olhos meio abertos e com a cabeça inclinada para a frente, com um copo de cerveja na mão! Uma das vezes que lá fomos, passam umas gajas por nós, ao que o Ribeirinha diz “não sabia que as flores andavam!”; as gajas pararam entre exclamações “Ahhhh!” e disseram, dirigindo-se para ele, “que bonito!”, enquanto eu soltava o golpe de misericórdia “Ribeirinha, telefona a Deus e diz-lhe que estão a cair anjos do céu”. Elas ficaram muito derretidas e estiveram muito tempo à conversa connosco, mas acabou por não acontecer nada (infelizmente, não é?).
O nosso herói (e eu), a dada altura, andava muito com a mania de se roçar em gajas, sobretudo no D. Dinis; mas isto não lhe bastava, ainda gostava de lhes dizer para se roçarem e de lhes chamar p…s (em dada altura, parecia que a palavra “p…” era o ponto final das suas frases). Ficou famosa a sua frase “Isso! Isso! Roça, roça, p..!”; essa frase ainda mais famosa se tornou quando, estava o nosso herói no DD numa zona apertada de passagem para que elas se roçassem nele (chegava-se à frente, o velhaco!) e vem uma gaja a passar, ao que ele lhe diz “Isso! Isso! Roça, roça!”; a gaja olha para ele e diz “cabrão!”; resposta do Ribeirinha “p…!”.
De outra vez, também no DD, estava lá uma gaja a dançar e, acho que olhou para ele, ao que ele diz, bem alto, sem contar com uma paragem momentânea entre duas músicas “tu estás a olhar, mas to f… que eu sei, p…!”.
Uma vez vi na televisão um documentário qualquer onde o Pinheiro de Azevedo, acerca de uns boatos quaisquer, disse que já tinha sido raptado duas vezes e que não gostava de ser raptado – “chateia-me” – dizia ele. A partir daí, qualquer coisa de que se falasse o Ribeirinha dizia que não gostava, que o chateava… Então surgiu outro diálogo famoso:
- Ribeirinha, gostas de f….?
- Não, pá, chateia-me!
De outra vez estávamos na faculdade mais uma malta e, não sei por alma de quem, decidimos ir até minha casa beber umas cervejas, pois ficava mais barato; o Ribeirinha não queria vir, mas como todo o pessoal decidiu vir, ele acabou por ceder. Estava a cair uma chuva miudinha, mas lá fomos; quando estávamos a malhar cervejas na minha cozinha, a chuva aumentou de intensidade e o Ribeirinha, em jeito de lamentação, diz, como se fossemos culpados de tal facto, “está a chover cada vez mais, pá; estes gajos…”. Foi risada geral.
Outra vez, estávamos no bar da nossa faculdade e estávamos com o pessoal do Coral Quecofónico do Cifrão – Tuna da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, e o Marralheiro estava com uma viola na mão, a dar dedadas (pois ele, tal como eu, não sabe tocar) e o Ribeirinha vira-se para o Marralheiro, tira-lhe a viola e diz: “Toca mas é qualquer coisa em condições. Por exemplo, as Dunas” e desata a tocar as Dunas, ao que eu e o Marralheiro, entusiasmados por ele saber tocar viola, dissemos-lhe que se ele sabia tocar podia entrar para a Tuna. Acontece que não, ele não sabia tocar mais nada do que as Dunas e não sabia uma nota do tamanho de um boi; apenas tocava aquela música e era decorada, apenas sabia onde pôr os dedos, sem saber se estava a tocar um dó, um ré ou um mi. Felizmente, mais tarde, e após ter subido muitas vezes a palco connosco, ter participado em tantas e tantas actividades do Coral, ter feito tanto pela nossa Tuna em diversas ocasiões, acabou por se lhe reconhecer o mérito, tendo-lhe sido atribuído o título de Antigo Coraleiro Honorário.
O Ribeirinha era (e é) um indivíduo a quem às vezes dava umas ideias que ia buscar não sei aonde e aparecia com aquelas teorias que eram, muitas vezes (a maior parte), desmontadas pelo pessoal, sobretudo nas nossa patuscadas em minha casa. Um dia, estivera a falar com o professor Joaquim Feio a propósito do pessoal que gosta muito de dizer “prontos”; a teoria do Ribeirinha, segundo ele dita pelo Feio, é que “prontos” não se dizia, que era uma palavra que não existia. Confrontado por mim com a frase “Nós estamos prontos para partir”, insistiu que não se dizia a Palavra “prontos” e, perguntado como se dizia então aquela frase, respondeu: “Nós estamos pronto…”. Mais uma vez, risada geral!
Lembro-me também de uma vez em que, numa das nossas patuscadas, ele chegou a minha casa e, num repente, foi direito ao saca-rolhas e desata a abrir uma garrafa de vinho e a dizer: “Estou cheio de fome. É melhor abrir isto depressa e começar a beber, pois pode ser que seja sede…”.
Tivemos ainda umas histórias relacionadas com “tachos” na DG/AAC, chegando mesmo a concorrer em listas diferentes, de forma a garantir o “tachinho” (que era remunerado) e dividindo o pecúlio a meias, caso ganhássemos (o que aconteceu).
Mas é um indivíduo muito porreiro, é um grande amigo que tenho e, quando fui para Erasmus, foi ele que ficou cá meu procurador para qualquer problema que existisse em Portugal e para assinar o que fosse necessário por mim. Foi ele que tratou de pedir (e pagar) o meu diploma e o meu certificado de habilitações da licenciatura, pois na altura eu andava por Lisboa e não tinha como ir a Coimbra; claro que lhe transferi o dinheiro, depois! Para a conta da Suíça em nome de Moreira Salgado, para onde dizíamos que ele transferia dinheiro que desviava da AAC quando era administrador! Bons tempos…

30 Julho 2009

Exames e Orais.

Durante os tempos em que os vossos heróis (nós) estudaram na Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, muitas coisa engraçadas se passaram por lá no que toca a exames e a orais. Hoje vou-vos contar algumas das histórias que por lá se passaram.
O Júlio Mota e a Economia Internacional eram um dos ossos mais duros de roer naquela faculdade, mas o Vítor Matos, já não me lembro se foi alguma oral ou se foi a defesa de algum trabalho, lá teve que o enfrentar; uma das histórias de que me lembro, foi de o professor, numa daquelas suas tentativas de deitar abaixo os alunos, perguntar ao Vítor que livro andava ele a ler, na esperança de que a resposta fosse “nenhum” ou um qualquer “best seller” diabolizado pela classe dita intelectual, para poder chamar ignorante e iletrado ao Vítor, mas este respondeu-lhe (não sei se mentira, ou verdade) “A Bíblia”; não aguardando de maneira nenhuma esta resposta, o Dr. Júlio Mota (que conheci um pouco melhor, em casa de um amigo comum, após ter acabado o meu curso, e que me pareceu muito melhor pessoa do que quando eu era um simples estudante) calou-se e não tocou mais no assunto, surpreendido pela resposta.
Certa vez o Caçador (um amigo nosso, que nunca teve estaleca para entrar para a Irmandade das Sombras) foi a um exame de Introdução ao Direito e chumbou, com um “R” na pauta. Andou atrás do professor para ver o exame, para saber por que motivo tinha chumbado e nunca conseguiu esse desiderato. Mas parece que a sua insistência foi tão cerrada que um dia, em plena época de Setembro, o professor entra numa sala de exames e pergunta se “Raul Caçador lá estava”; como o nosso amigo lá estivesse levantou o braço, ao que o professor, irritado, lhe disparou esta à frente de toda a gente: “Você anda aqui há não sei quanto tempo atrás de mim para ver o exame e saber porque chumbou, quando você nem 1 aqui teve!”.
O Branquinho foi fazer o exame de História Económica Portuguesa e andou lá com tolices acerca de os antepassados de David Ricardo serem portugueses e terem fugido para a Inglaterra por causa da Inquisição; parece que escreveu lá entre parêntesis “maldita inquisição” e o Romero Magalhães, que não era para brincadeiras, chumbou-o. Ora o amigo Branquinho resolveu ir ver o exame, para ver onde tinha errado. Chegou lá e lá estava o Romero, muito atencioso, a perguntar-lhe o nome. O Branquinho lá lhe disse o nome e o Romero buscou nos exames à procura do exame dele. Quando o encontrou, fez uma cara de espanto e disse, atónito: “Então, mas o senhor chumbou!”; “Pois chumbei”, disse o Branquinho; “Então, o que faz aqui?”, retorquiu Romero; “Quero ver porque chumbei”; “Chumbou porque não respondeu bem às perguntas!”, concluiu Romero, não deixando o Branquinho, para seu grande espanto, ver o exame.
Outra vez o amigo Branquinho foi a uma oral de Economia Regional com o professor Barbosa de Melo. Quando lá chegou, estava um desenho no quadro, que correspondia a um modelo de Weber que estudávamos para aquela cadeira e que era impossível não saber. Certamente tinha sido desenhado por algum aluno a quem tinham solicitado que representasse o modelo de localização industrial de Weber e que se esqueceram de lhe pedir para apagar. Ora, quando o Branquinho lá entrou, o professor disse-lhe: “Está a ver essa garatuja aí no quadro?”; “Estou”, respondeu o Branquinho; “Sabe-me dizer o que é isso?”; “Sei. É um triângulo inscrito numa circunferência!”, respondeu, sabendo muito bem o que era aquilo, mas só para chatear; “Certíssimo!”, respondeu o professor achando piada, “Mas se tivesse que associar isso a algum modelo que estudou nesta cadeira, a quem associava isso?”; “Ao modelo de localização industrial de Weber”; “Muito bem. Então diga lá o que é actual e o que não é actual nesse modelo”. O Branquinho começou a desbobinar aquilo tudo e, a certa altura, o professor interrompe-o para lhe dizer que aquilo que o Branquinho estava a dizer era o B-A-BA da economia, ao que o Branquinho lhe respondeu: “O que o Sr. Professor me está a perguntar é o B-A-BA da economia…”; “Calma! Calma!”, continuou o professor, “Não se enerve!”. E, após isto, fez-lhe mais uma ou duas perguntitas de caracácá e passou-o.
O Marralheiro foi a uma oral de Estatística II e não sabia nada daquilo. Segundo dizia, não sabia como tinha ido à oral, mas lá foi. Antes de entrar, naquela normal azáfama antes de entrar para a sala, o Marralheiro perguntou lá uma coisa a um fulano que também lá estava para fazer oral, ao que o indivíduo lhe respondeu, mostrando-lhe uma fórmula que se aplicava àquele caso. Entretanto chegou a vez do nosso herói e, não é que lhe fazem logo aquela pergunta?! O nosso amigo escarrapachou a fórmula no quadro e, tendo ouvido sons de incitamento, mas não sabendo o que fazer com aquela fórmula, começou a desenvolvê-la matematicamente; foi resolvendo até que chegou a um ponto em que não dava para avançar mais e parou. Nesta altura o professor disse: “Muito bem. Agora diga lá que lei é que isso segue…”. O Marralheiro não sabia, por isso pegou lá nas tabelas estatísticas que se usavam (e devem continuar a usar, digo eu) e abriu-as. Eu interrompo aqui para dizer que o que custava nessa matéria de Estatística II era, precisamente, saber que lei aquelas porcarias seguiam, pois o resto era decorar umas fórmulas; ora, quem não soubesse depois aplicar a lei correcta, era o mesmo que nada (ou quase). Dizia eu que o Marralheiro abriu as tabelas estatísticas na primeira página (e primeira lei) e disse, hesitante: “É esta…”; “Não”, respondeu o professor; virou a página e apontou para a segunda lei: “É esta…”; “Não”; voltou outra página e hesitou de novo: “É esta?…”; resposta negativa de novo. E foi assim, sucessivamente de lei em lei, até chegar à última página e responder, mais confiante: “É esta!”. “Muito bem”, foi a resposta do professor. No fim, o professor disse-lhe que ele até percebia alguma coisa da matéria (!!!), que só não sabia muito bem que leis é que as coisas seguiam, mas lá o passou!
Quando fui fazer Contabilidade Geral andei a tentar estudar aquela porcaria com um colega que não vejo há muito tempo – com muita pena minha, pois era um gajo muito “fixe” – o Sérgio Nuno; ora, aquela porcaria não me entrava na cabeça, até porque como eu detestava aquilo já desde os tempos de liceu, não estudava nada e pouco mais fazia que distrair o meu amigo (daí aquilo não me entrar na cabeça!). Sucedeu então que, pouco antes do exame achei por bem não pôr lá os pés, mas o Sérgio disse para eu ir, pois não perdia nada e sempre podia ser que desse para eu copiar por ele, que ia tentar subir o 10 que tivera na época transacta. Assim fiz e, no dia do exame, lá estava eu, sentado num anfiteatro, atrás do Sérgio. Aquilo correu que foi uma maravilha: não só o professor das aulas teóricas não apareceu com os seus 5 valores da teórica, tendo o Conselho Pedagógico decidido nos atribuír os 5 valores directamente, como o professor que estava a vigiar abriu o enorme jornal e não prestou atenção nenhuma a quem copiava ou deixava de copiar; foi um fartote! Copiei quanto quis pelo Sérgio e a nota foi… 8, tal como o Sérgio que ia subir um 10, que sabia daquilo e que também tivera os mesmos 5 valores da teórica! Ora, como podia eu ir à oral, se eu não “pescava” absolutamente nada daquilo? Mas lá me convenceram e eu fui. Éramos 20 naquela manhã para a oral e o professor das teóricas não apareceu. Que orais aquelas! O professor das práticas à porta a falar com o pessoal que estava para a oral e um gajo lá dentro a escrever no quadro. E as perguntas eram básicas e uma só a cada aluno! Foi passar, passar, passar, até que o professor das teóricas chegou! Foi o desespero de quem não tinha feito ainda oral. Entraram os dois na sala, sentaram-se e começaram a fazer orais mais complicadas, mas o pessoal continuou a passar todo. Não acreditando muito na passagem, perguntei a um indivíduo que lá estava como se registava uma compra e uma venda (o mais básico, mas nem isso eu sabia!) ao que o gajo me pergunta: “Em inventário periódico ou permanente?”. “Sei lá!”, respondi eu, que nem sabia que havia maneiras diferentes de registar compras ou vendas, “a mais fácil!”. O gajo lá me ensinou e as orais foram correndo até que chegou a minha vez, que me deixara ficar para último. Já seriam cerca de 14h30. Entrei com os enormes calhamaços da cadeira (que não lera) e pousei-os na secretária. Então passou-se o seguinte diálogo:
Professor – Que grandes livros aí traz…
Batinas – É para aproveitar para estudar até à última!
P – Então você não tem vergonha de terem-lhe dado 5 valores e, mesmo assim, só ter conseguido tirar 8?
B – Sim, mas a correcção do exame também foi extremamente rigorosa…
P – Bem. Deixemos lá isso. Está nervoso?
B – Um bocado.
P – Olhe lá, você não gosta lá muito de Contabilidade Geral, pois não? (informo aqui que o professor não me conhecia de lado nenhum, pois eu nunca tinha ido às aulas, nem era um estudante conhecido, naquela altura).
B – Sinceramente, não!
P – Ah! Ah! Ah! Só por isso merece passar! Vá-se lá embora!
Incrédulo, sem saber se estava a ser gozado ou não, vejo o professor das práticas escrever um 11 na oral e um 10 de nota final! Nem pensei duas vezes: agarrei nos livros e saí porta fora. E agora reconheço que foi justo, pois as minhas respostas, tirando a de os livros estarem ali comigo para estudar até à última (que foi falso, eram só para fazer de conta), foram todas correctas, por isso acho que o 11 da oral até foi pouco!
Houve também uma oral minha muito engraçada a Organização Económica Internacional com o Joaquim Feio, mas essa já foi contada neste blogue e podem lê-la na crónica com o nome “Joaquim Feio”.
Outra oral engraçada passou-se também com o Branquinho; foi a Estatística II. Havia lá uma fórmula qualquer que pediram ao Branquinho para a desenvolver. O Branquinho lá a desenvolveu e chegou a um ponto em que ia escrever (ou melhor, escreveu) uma asneira e o professor interrompeu-o com um “Alto! Acha que isso está bem?”. O Branquinho interrompeu e olhou para aquilo, reparando no erro (tinha escrito numa das parcelas a derivada da variável em ordem à função, em vez da derivada da função em ordem à variável – para quem entender, tinha escrito dx/df em vez de df/dx), disse: “Calma, ainda não acabei!” e zás, com uma presença de espírito notável, eleva a -1, que já estava correcto, embora não se costumasse fazer aquilo. A verdade é que se escrevia df/dx, mas escrever dx/df e elevar a -1 é exactamente a mesma coisa! No fim, ainda teve a lata de perguntar ao professor se estava bem, o qual teve que admitir que sim.
Outra oral engraçada do Branquinho foi a Introdução à Economia, com o Júlio Gomes. O Branquinho, como tinha muita facilidade com a matemática, dava estas reviravoltas ou mandava estas bocas sempre que podia. Então nessa oral, o Branquinho entrou e estava desenhado no quadro um gráfico de oferta e de procura (tenho muita pena, mas não sei desenhar isso num computador, por isso vão ter que ficar pela minha descrição, o que é mau, para quem não conheça estas matérias), pelo que o Júlio Gomes perguntou-lhe se ele estava a ver aquilo, ao que o Branquinho respondeu que sim e pensou que já tinha respondido bem a uma pergunta; então o Júlio Gomes perguntou-lhe o que é que aquilo representava e o Branquinho, com a sua lata, em vez de dizer que era um gráfico de oferta e procura (que sabia perfeitamente), resolveu desconversar e respondeu: "Representa o 1.º quadrante dos eixos cartesianos; ao eixo das abcissas chamaram Q, ao das ordenadas chamaram P; existe uma recta de inclinação positiva a que chamaram S e uma de inclinação negativa a que chamaram D". Desconcertado com a resposta, o Júlio Gomes respondeu “Muito bem” e o Branquinho pensou “já acertei em duas respostas!”. Mas o Júlio Gomes continuou, pois ainda não estava completamente convencido da sapiência do Branquinho: "Olhe, e se eu lhe dissesse que isso é um gráfico de oferta e de procura, qual é a recta da procura?"; "É a D" respondeu o Branquinho; "E a da oferta?"; "É a S". Com isto terminou a oral, da qual o Branquinho saiu passado!
Também tive uma oral de Matemática I e, para ter mais tempo para pensar enquanto escrevia, banhei o meu polegar direito em mercurocromo e enrolei um penso rápido, para dar ideia que estava magoado e poder escrever mais lentamente; a juntar a tudo isso, ainda levei uma t-shirt vestida que tinha escrito nas costas: "Se estudar é a luz da vida, não estudes poupa energia". Num daqueles momentos em que escrevia muito lentamente a pensar bem o que estava a fazer, ainda ouvi a professora Teresa Pedroso de Lima a dizer, com simpatia: "Ande lá, mais depressa, não poupe tanta energia!", ao que lhe respondi, que não podia, que tinha um grande golpe no dedo! O resultado final foi o pretendido: 10 valores!
Finalmente, recordar uma triste oral do Patrício, a Introdução ao Direito, a sua primeira oral e que traumatizou um bocado o rapaz. É que ele nem estava a contar ir a oral e foi o último; ainda por cima, todos os outros tinham passado. Ao que consta, o professor passou a oral toda a enrolar papeis e a lançá-los ao lixo, tipo basquetebolista e, no fim, o pobre Patrício não só chumbou, como ainda teve que ouvir do professor: “A sua oral ainda foi pior que a escrita!”. Mas a vida é assim, acabou por passar noutras e eu também fiz algumas cadeiras em oral e também chumbei (imerecidamente, claro!) noutras. O que interessa é que a coisa se fez.

24 Fevereiro 2009

Jaime Ferreira


Ontem fui ao Mc Donalds da Guarda almoçar e, sem contar, encontrei lá um dos grandes professores da Faculdade de Economia do meu tempo: o Prof. Jaime Ferreira.
Quando entrei, reparei numa cara conhecida, sentada sozinha numa mesa. Após uns segundos de reconhecimento, dirigi-me a ele, estendendo-lhe a mão e falando nos seguintes termos:
- Senhor professor, nem o estava a reconhecer! Jamais poderia associar a sua cara a um lugar como estes! – disfarcei, para não lhe dizer como o achei velhote e em baixo.
- Eu posso ser velhote, mas não estou tão desactualizado que não possa vir a um sítio destes! – respondeu com a mesma lucidez de sempre e apertando-me a mão, tendo-me reconhecido imediatamente. – Então por aqui?
- Estou a viver na Guarda. Trabalho em (…) e vivo aqui.
Após termos explicado um ao outro o motivo que nos tinha levado a encontrarmo-nos num sítio tão improvável, tão longe do local onde as nossas vidas se cruzaram, lá se saiu, como sempre, com as suas tiradas cheias de sapiência. Gostei tanto de ver o professor! Está muito mais velho do que eu me lembro de o ver, há mais de 17 anos, numa das minhas primeiras aulas da faculdade, mas continua com a mesma simpatia e lucidez:
- Um homem solteiro morre que nem um cão e vive que nem um homem; um homem casado, morre que nem um homem e vive que nem um cão! – disse, citando um padre que discursou num funeral a que ele foi, em criança, ali na zona da Guarda, de onde é natural.
O professor Jaime Ferreira era professor de uma cadeira anual que tive no meu primeiro ano – História Económica e Social (HES) – e foi dos primeiros professores que tive na FEUC. Era um homem simpático e dava das aulas menos desagradáveis (eu também sempre fui um apreciador de história, por isso é natural que gostasse mais das aulas dele do que de outras), e foi dos professores que melhores notas me deu ao longo da minha carreira académica: 14 a HES e 13 a História da Europa Contemporânea.
Uma vez o Branquinho, pelo facto de ter chumbado na 2ª frequência de HES, tinha que ir a exame; como, entretanto, tinha já uma viagem marcada para ir à então Checoslováquia para o dia a seguir ao exame, foi ter com o professor a ver se se conseguia baldar ao exame; Jaime recebeu-o, ouviu a história do Amigo Branquinho, perguntou-lhe o nome, procurou o exame dele na pilha dos exames e tirou então um exame sem qualquer risco vermelho, apenas com a nota final, e começou a falar do exame: que na primeira pergunta o senhor falou nisto e naquilo, que se tinha esquecido daquilo e daquilo e assim sucessivamente, pergunta por pergunta! Ou seja, só de olhar para o exame, ele lembrava-se de tudo o que lá estava e de tudo o que lá faltava! Depois disse: "como pode comprovar, vai ter de voltar cá na 2.ª chamada, mas não se preocupe, passe por cá uns dias antes do exame para conversarmos melhor". Ora o Branquinho assim fez e uns dias antes do exame foi lá colocar uma dúvida e ele começou a falar da matéria que ia sair.
A partir daí, e nós fizemo-lo a História da Europa Contemporânea, antes do exame íamos ao seu gabinete pôr uma dúvida; se o que lhe perguntávamos não saía, ele dizia que isso não era muito importante, mas que devíamos ver isto e aquilo, que se perguntasse isto ou aquilo devíamos falar disto e mais disto, enfim, púnhamos uma dúvida sobre uma coisa qualquer e ele despejava a matéria que ia sair no exame!
Talvez por ter começado a usar capa e batina muito cedo e com muita frequência, passou a conhecer-me desde muito cedo (depois foram 13 matrículas, sempre de capa e batina – não havia como não me conhecer!) e cumprimentava-me e falava muito bem comigo sempre que me via.
Foi presidente do conselho directivo da FEUC numa altura em que o Tomásio lá esteve, pelo que soube que era um bonacheirão que gostava muito de beber o seu tintinho; e não perdia oportunidade de o degustar. Foi, aliás, durante o seu mandato como presidente do conselho directivo que, sob proposta do Tomásio (promessa eleitoral da nossa lista) foi aprovada a venda de vinho e outras bebidas alcoólicas, para além da cerveja, no bar da FEUC.
Certa vez, estava eu com o pessoal, à tarde, no bar da faculdade, e vejo aprontarem umas mesas com comida e bebida (doces, salgados, sumos e vinho); vejo, entretanto, chegarem estudantes ERASMUS e alguns professores importantes, tais como o nosso Jaime Ferreira, então presidente do conselho directivo (daí o vinho); apercebemo-nos que era uma recepção que a FEUC fazia aos estudantes ERASMUS, pelo que me levantei e fui ter com ele:
- Sr. Professor, tenho uma reclamação a fazer-lhe!
- Diga lá, homem!
- Ando aqui há (…) anos e nunca me fizeram uma recepção com comida e bebida, e estes senhores acabam de chegar para cá passar uns meses e é logo esta festa, com vinho e tudo!
- Não seja por causa disso! Sirva-se à vontade! – e ele próprio me encheu o copo de vinho.
Nesse dia lá comi e lá me emborrachei no bar, à custa da faculdade, perante o olhar invejoso do resto do pessoal que não teve a mesma coragem que eu.
Mais tarde, a Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras decidiu outorgar-lhe a “Grande Comenda da Ordem do Litro y Meio”. Comunicámos-lhe a decisão e ele aceitou com gosto, tendo acedido a comparecer no Convénus Mustinto, desde “que o vinho que lá servissem fosse bom”, pois já não bebia qualquer porcaria; comprámos um vinhito jeitoso e ele acabou por não aparecer (embebedámo-nos na mesma, claro!). Quando o voltámos a ver, pediu-nos imensa desculpa, mas surgira-lhe qualquer coisa à última hora que não lhe permitiu aparecer, mas que, quando quiséssemos, marcar-se-ia outro dia; entretanto o tempo foi passando, e nunca lhe chegámos a entregar a comenda.
Quando chegou a altura de assinar as minhas fitas, obviamente que fui ter com ele, ao que ele escreveu “Com um grande abraço e desejo de felicidades, Jaime Ferreira”, enquanto ia ditando a dedicatória a si próprio, seguindo-se um aperto de mão e a frase ”pode crer que isto que escrevi é sincero”.
Certamente muitas coisas sábias que ele disse ficarão aqui por contar, mas termino com uma frase que ele disse uma vez numa aula, após ter feito uma pergunta a que ninguém, excepto eu, soube responder e que, a partir daí, eu comecei a utilizar muito: “Pois é! Felizmente a ignorância não dói…”.
Foi um gosto muito grande tê-lo tido como meu professor e tê-lo reencontrado pela Guarda. PROFESSOR!

16 Dezembro 2008

Saraus

Foi já aqui referido tanto pelo Batinas como pelo Brandaluis, que a malta da TTIS e os seus amigos tinham por hábito a realização de “saraus” nos Patamares das Farmácias. No entanto, nada foi dito da razão de ser desses eventos nem da forma como decorriam.
Ora bem, creio que é chegada a altura de tecer algumas considerações sobre estes famosos saraus.
Corria o ano de mil, novecentos, noventa e troca o passo quando, estando a malta a confraternizar numa noite de Sarau Académico de Latada, verificámos que para assistirmos ao dito sarau era necessário pagar bilhete. O preço não estava em causa, o que nos revoltou grandemente foi o facto de termos de pagar para assistir à apresentação feita à Academia das actividades dos seus diferentes grupos!...
Ora isto era, a nossos olhos, inadmissível!
Por isso decidimos organizar um sarau só nosso.
As regras eram muito simples:
Primeiro, organizavamos uma “festa do litro y meyo”, seguida de sarau, nos Imperiais Paços do Reino Convénus Mustinto (a nossa sede também já referida em posts anteriores);
Segundo, a festa seria aberta a todos os nossos amigos que desejassem participar, como sempre;
Terceiro, para poder participar na festa, os participantes, para além do consumo mínimo já referido no post relacionado com as “festas do litro y meyo, teriam que participar também no sarau apresentando um número que podia ser uma actividade artística qualquer, desde a representação, música, teatro, contar anedotas (o que mais tarde veio a ser conhecido por “stan up comedy”, ou lá o que é), etc…
Nem queiram saber o que nos divertimos nessa noite!...
A malta já bem bebida a fazer representações e a cantar era algo digno de ser visto!... Duvido que em qualquer sarau da Academia qualquer um dos presentes se tivesse divertido tanto como nós e ainda hoje sinto uma nostalgia especial e continuo a rir-me sozinho sempre que me lembro desse primeiro sarau.
Depois deste sucesso inicial, os saraus da TTIS passaram a ser mais informais e a decorrer sempre que nos dava na real gana. É aqui que entram os célebres Patamares das Farmácias.
Ora, como tínhamos o salutar hábito de ir com uma certa regularidade ao Pinto confraternizar um bocado, bem como, naquela altura, a referida tasca tinha o péssimo hábito de fechar cedo (às 23 horas da tarde…), nós acabávamos por nos ver na rua com vontade de continuar a festa noutro sítio.
Assim sendo, como o dinheiro não era coisa que abundasse nos nossos bolsos, optávamos por adquirir cada um uma garrafita de traçado e/ou de abafado (que estavam ao alcance dos nossos parcos recursos) e rumávamos aos Patamares das Farmácias.
O local era o ideal para estarmos à vontade pois não havia vizinhos num raio de 100 metros do local, bem como podíamos desfrutar de uma fabulosa vista sobre a cidade de Coimbra.
Notar que, hoje em dia, seria bastante difícil esta “romagem” devido ao facto de ter sido colocada (por parte de algum invejoso do nosso divertimento, sem dúvida) uma grade alta que impede o acesso aos referidos patamares. Mas, continuando…
Lá nos dirigíamos nós para os patamares onde acabávamos quase sempre por realizar um sarauzito
Recordo ainda hoje o que nos rebolávamos a rir com as diversas apresentações, cujas mais famosas eram, sem dúvida:
A Cláudia “Zé Pedro” a cantar o seu sucesso “Eu não tenho neurónios!”, com os cabelos a tapar-lhe completamente a cara como se fosse uma metaleira num concerto;
A ver o Brandaluis e o Batinas a fazer a 1.ª Kata (será assim que se escreve) do Karaté, imaginem dois bêbados completamente descompassados a dar socos e pontapés no ar; ou ainda
A representação feita por mim e pelo Batinas, da história do “Manclitó e o Génio da Lâmpada” projectada em sombras na parede da Universidade com auxílio dos holofotes instalados nos patamares.
Claro está que as guitarras, as vozes mais ou menos afinadas e as canções (originais nossas ou não) marcavam sempre presença.
Finda a noite, seguíamos divertidíssimos para casa tendo a certeza que nos tínhamos divertido imenso, bebido quanto baste e gasto muito pouco dinheirinho (o que era essencial para forretas pobres como nós)!...
Pessoalmente sei que estas histórias não devem ter tido muita piada para quem não tenha algum dia participado num dos nossos saraus, no entanto, apenas as escrevi para que aqueles que nalgum sarau participaram possam recordar os tempos despreocupados que um dia vivemos.