24 Fevereiro 2009

Jaime Ferreira


Ontem fui ao Mc Donalds da Guarda almoçar e, sem contar, encontrei lá um dos grandes professores da Faculdade de Economia do meu tempo: o Prof. Jaime Ferreira.
Quando entrei, reparei numa cara conhecida, sentada sozinha numa mesa. Após uns segundos de reconhecimento, dirigi-me a ele, estendendo-lhe a mão e falando nos seguintes termos:
- Senhor professor, nem o estava a reconhecer! Jamais poderia associar a sua cara a um lugar como estes! – disfarcei, para não lhe dizer como o achei velhote e em baixo.
- Eu posso ser velhote, mas não estou tão desactualizado que não possa vir a um sítio destes! – respondeu com a mesma lucidez de sempre e apertando-me a mão, tendo-me reconhecido imediatamente. – Então por aqui?
- Estou a viver na Guarda. Trabalho em (…) e vivo aqui.
Após termos explicado um ao outro o motivo que nos tinha levado a encontrarmo-nos num sítio tão improvável, tão longe do local onde as nossas vidas se cruzaram, lá se saiu, como sempre, com as suas tiradas cheias de sapiência. Gostei tanto de ver o professor! Está muito mais velho do que eu me lembro de o ver, há mais de 17 anos, numa das minhas primeiras aulas da faculdade, mas continua com a mesma simpatia e lucidez:
- Um homem solteiro morre que nem um cão e vive que nem um homem; um homem casado, morre que nem um homem e vive que nem um cão! – disse, citando um padre que discursou num funeral a que ele foi, em criança, ali na zona da Guarda, de onde é natural.
O professor Jaime Ferreira era professor de uma cadeira anual que tive no meu primeiro ano – História Económica e Social (HES) – e foi dos primeiros professores que tive na FEUC. Era um homem simpático e dava das aulas menos desagradáveis (eu também sempre fui um apreciador de história, por isso é natural que gostasse mais das aulas dele do que de outras), e foi dos professores que melhores notas me deu ao longo da minha carreira académica: 14 a HES e 13 a História da Europa Contemporânea.
Uma vez o Branquinho, pelo facto de ter chumbado na 2ª frequência de HES, tinha que ir a exame; como, entretanto, tinha já uma viagem marcada para ir à então Checoslováquia para o dia a seguir ao exame, foi ter com o professor a ver se se conseguia baldar ao exame; Jaime recebeu-o, ouviu a história do Amigo Branquinho, perguntou-lhe o nome, procurou o exame dele na pilha dos exames e tirou então um exame sem qualquer risco vermelho, apenas com a nota final, e começou a falar do exame: que na primeira pergunta o senhor falou nisto e naquilo, que se tinha esquecido daquilo e daquilo e assim sucessivamente, pergunta por pergunta! Ou seja, só de olhar para o exame, ele lembrava-se de tudo o que lá estava e de tudo o que lá faltava! Depois disse: "como pode comprovar, vai ter de voltar cá na 2.ª chamada, mas não se preocupe, passe por cá uns dias antes do exame para conversarmos melhor". Ora o Branquinho assim fez e uns dias antes do exame foi lá colocar uma dúvida e ele começou a falar da matéria que ia sair.
A partir daí, e nós fizemo-lo a História da Europa Contemporânea, antes do exame íamos ao seu gabinete pôr uma dúvida; se o que lhe perguntávamos não saía, ele dizia que isso não era muito importante, mas que devíamos ver isto e aquilo, que se perguntasse isto ou aquilo devíamos falar disto e mais disto, enfim, púnhamos uma dúvida sobre uma coisa qualquer e ele despejava a matéria que ia sair no exame!
Talvez por ter começado a usar capa e batina muito cedo e com muita frequência, passou a conhecer-me desde muito cedo (depois foram 13 matrículas, sempre de capa e batina – não havia como não me conhecer!) e cumprimentava-me e falava muito bem comigo sempre que me via.
Foi presidente do conselho directivo da FEUC numa altura em que o Tomásio lá esteve, pelo que soube que era um bonacheirão que gostava muito de beber o seu tintinho; e não perdia oportunidade de o degustar. Foi, aliás, durante o seu mandato como presidente do conselho directivo que, sob proposta do Tomásio (promessa eleitoral da nossa lista) foi aprovada a venda de vinho e outras bebidas alcoólicas, para além da cerveja, no bar da FEUC.
Certa vez, estava eu com o pessoal, à tarde, no bar da faculdade, e vejo aprontarem umas mesas com comida e bebida (doces, salgados, sumos e vinho); vejo, entretanto, chegarem estudantes ERASMUS e alguns professores importantes, tais como o nosso Jaime Ferreira, então presidente do conselho directivo (daí o vinho); apercebemo-nos que era uma recepção que a FEUC fazia aos estudantes ERASMUS, pelo que me levantei e fui ter com ele:
- Sr. Professor, tenho uma reclamação a fazer-lhe!
- Diga lá, homem!
- Ando aqui há (…) anos e nunca me fizeram uma recepção com comida e bebida, e estes senhores acabam de chegar para cá passar uns meses e é logo esta festa, com vinho e tudo!
- Não seja por causa disso! Sirva-se à vontade! – e ele próprio me encheu o copo de vinho.
Nesse dia lá comi e lá me emborrachei no bar, à custa da faculdade, perante o olhar invejoso do resto do pessoal que não teve a mesma coragem que eu.
Mais tarde, a Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras decidiu outorgar-lhe a “Grande Comenda da Ordem do Litro y Meio”. Comunicámos-lhe a decisão e ele aceitou com gosto, tendo acedido a comparecer no Convénus Mustinto, desde “que o vinho que lá servissem fosse bom”, pois já não bebia qualquer porcaria; comprámos um vinhito jeitoso e ele acabou por não aparecer (embebedámo-nos na mesma, claro!). Quando o voltámos a ver, pediu-nos imensa desculpa, mas surgira-lhe qualquer coisa à última hora que não lhe permitiu aparecer, mas que, quando quiséssemos, marcar-se-ia outro dia; entretanto o tempo foi passando, e nunca lhe chegámos a entregar a comenda.
Quando chegou a altura de assinar as minhas fitas, obviamente que fui ter com ele, ao que ele escreveu “Com um grande abraço e desejo de felicidades, Jaime Ferreira”, enquanto ia ditando a dedicatória a si próprio, seguindo-se um aperto de mão e a frase ”pode crer que isto que escrevi é sincero”.
Certamente muitas coisas sábias que ele disse ficarão aqui por contar, mas termino com uma frase que ele disse uma vez numa aula, após ter feito uma pergunta a que ninguém, excepto eu, soube responder e que, a partir daí, eu comecei a utilizar muito: “Pois é! Felizmente a ignorância não dói…”.
Foi um gosto muito grande tê-lo tido como meu professor e tê-lo reencontrado pela Guarda. PROFESSOR!

16 Dezembro 2008

Saraus

Foi já aqui referido tanto pelo Batinas como pelo Brandaluis, que a malta da TTIS e os seus amigos tinham por hábito a realização de “saraus” nos Patamares das Farmácias. No entanto, nada foi dito da razão de ser desses eventos nem da forma como decorriam.
Ora bem, creio que é chegada a altura de tecer algumas considerações sobre estes famosos saraus.
Corria o ano de mil, novecentos, noventa e troca o passo quando, estando a malta a confraternizar numa noite de Sarau Académico de Latada, verificámos que para assistirmos ao dito sarau era necessário pagar bilhete. O preço não estava em causa, o que nos revoltou grandemente foi o facto de termos de pagar para assistir à apresentação feita à Academia das actividades dos seus diferentes grupos!...
Ora isto era, a nossos olhos, inadmissível!
Por isso decidimos organizar um sarau só nosso.
As regras eram muito simples:
Primeiro, organizavamos uma “festa do litro y meyo”, seguida de sarau, nos Imperiais Paços do Reino Convénus Mustinto (a nossa sede também já referida em posts anteriores);
Segundo, a festa seria aberta a todos os nossos amigos que desejassem participar, como sempre;
Terceiro, para poder participar na festa, os participantes, para além do consumo mínimo já referido no post relacionado com as “festas do litro y meyo, teriam que participar também no sarau apresentando um número que podia ser uma actividade artística qualquer, desde a representação, música, teatro, contar anedotas (o que mais tarde veio a ser conhecido por “stan up comedy”, ou lá o que é), etc…
Nem queiram saber o que nos divertimos nessa noite!...
A malta já bem bebida a fazer representações e a cantar era algo digno de ser visto!... Duvido que em qualquer sarau da Academia qualquer um dos presentes se tivesse divertido tanto como nós e ainda hoje sinto uma nostalgia especial e continuo a rir-me sozinho sempre que me lembro desse primeiro sarau.
Depois deste sucesso inicial, os saraus da TTIS passaram a ser mais informais e a decorrer sempre que nos dava na real gana. É aqui que entram os célebres Patamares das Farmácias.
Ora, como tínhamos o salutar hábito de ir com uma certa regularidade ao Pinto confraternizar um bocado, bem como, naquela altura, a referida tasca tinha o péssimo hábito de fechar cedo (às 23 horas da tarde…), nós acabávamos por nos ver na rua com vontade de continuar a festa noutro sítio.
Assim sendo, como o dinheiro não era coisa que abundasse nos nossos bolsos, optávamos por adquirir cada um uma garrafita de traçado e/ou de abafado (que estavam ao alcance dos nossos parcos recursos) e rumávamos aos Patamares das Farmácias.
O local era o ideal para estarmos à vontade pois não havia vizinhos num raio de 100 metros do local, bem como podíamos desfrutar de uma fabulosa vista sobre a cidade de Coimbra.
Notar que, hoje em dia, seria bastante difícil esta “romagem” devido ao facto de ter sido colocada (por parte de algum invejoso do nosso divertimento, sem dúvida) uma grade alta que impede o acesso aos referidos patamares. Mas, continuando…
Lá nos dirigíamos nós para os patamares onde acabávamos quase sempre por realizar um sarauzito
Recordo ainda hoje o que nos rebolávamos a rir com as diversas apresentações, cujas mais famosas eram, sem dúvida:
A Cláudia “Zé Pedro” a cantar o seu sucesso “Eu não tenho neurónios!”, com os cabelos a tapar-lhe completamente a cara como se fosse uma metaleira num concerto;
A ver o Brandaluis e o Batinas a fazer a 1.ª Kata (será assim que se escreve) do Karaté, imaginem dois bêbados completamente descompassados a dar socos e pontapés no ar; ou ainda
A representação feita por mim e pelo Batinas, da história do “Manclitó e o Génio da Lâmpada” projectada em sombras na parede da Universidade com auxílio dos holofotes instalados nos patamares.
Claro está que as guitarras, as vozes mais ou menos afinadas e as canções (originais nossas ou não) marcavam sempre presença.
Finda a noite, seguíamos divertidíssimos para casa tendo a certeza que nos tínhamos divertido imenso, bebido quanto baste e gasto muito pouco dinheirinho (o que era essencial para forretas pobres como nós)!...
Pessoalmente sei que estas histórias não devem ter tido muita piada para quem não tenha algum dia participado num dos nossos saraus, no entanto, apenas as escrevi para que aqueles que nalgum sarau participaram possam recordar os tempos despreocupados que um dia vivemos.

18 Novembro 2008

Malta à antiga!

O pessoal da Tesoural Tertúlia Irmandade das Sombras era uma malta à antiga! Hoje, em 2008, somos já pessoas entre os 31 e os 36 anos, todos trabalhamos, todos (excepto um) somos casados, alguns já têm filhos (alguns até mais que um), vivemos longe uns dos outros (de Esposende à Guarda, de Guimarães a Coimbra, de Espinho a Viseu e até um na Madeira), mas mantemos ainda muito do antigo espírito de então, tendo o hábito de nos encontrarmos de vez em quando em casa uns dos outros ou por Coimbra, tendo como ponto mais alto o jantar de aniversário do Coral Quecofónico do Cifrão – Tuna da Faculdade de Economia – da qual a Irmandade das Sombras é fundadora e, claro, os membros mais antigos desta Tertúlia são fundadores.
Para nós não havia “traje”, havia “capa e batina”; não havia “pins”, não dobrávamos as capas muito bem dobradinhas, com os distintivos tipo “árvore de natal” e à mostra;
Éramos malta de andar todos os dias de capa e batina. E quando digo “todos os dias”, quero dizer “todos os dias”; os mais radicais (que éramos quase todos) andávam todos os dias com a capa e batina e era muito raro o dia, e só por uma causa muito extraordinária, em que nos viam à futrica, sendo que até, às vezes, íamos assim vestidos para as nossas terras. Alguns de nós, após muitos meses, se nos apanhavam um dia vestidos com outra roupa, diziam que nunca nos tinham visto assim!
Todos nós sabíamos o Código da Praxe de trás para a frente, mas os nossos conhecimentos iam muito para além da letra da lei que lá estava, tentando sempre saber mais e mais de Praxe e dos hábitos dos antigos estudantes (que tentávamos reviver na nossa época, sabendo que os anos 90 do séc. XX eram muito diferentes dos anos 50 ou anteriores) através de conversas com antigos estudantes ou de livros de memórias de antigos estudantes ou de tudo o que estivesse ao nosso alcance para aprender mais e mais acerca de Coimbra.
Não éramos de “praxar” só nas alturas que todos “praxavam”, não éramos de muitas “praxes” organizadas pelos “naftalinosos” – os que só tiravam a capa e batina da naftalina na Latada e na Queima (que triste espectáculo o de uns dias antes destas festas, com as janelas cheias de capas a apanharem sol para sair o cheiro a mofo ou naftalina!) – nós todos os dias gozávamos com os caloiros, todos os dias eles nos levavam o tabuleiro na cantina, todos os dias eles nos davam as suas cadeiras no bar ou iam buscar uma para nós, todos os dias eles nos iam buscar coisas ao bar, todos os dias nos davam os ases e os trunfos ao jogarmos à sueca no bar, todos os dias nos diziam coisas para nos levantar o ego e todos os dias nós os tratávamos por “você”… Só a partir do dia do cortejo da Queima os passávamos a tratar por “tu”.
Com o normal diminuir do interesse com o avançar da idade, éramos malta que fazia trupes, que rapava caloiros, que fazia julgamentos (os já referidos Processos de Atribuição de Culpas, no Convénus Mustinto, por falta de Repúblicas onde se pudesse fazer isso); éramos aqueles a quem os outros vinham sempre consultar quando precisavam de saber alguma coisa sobre Praxe; éramos quem afixava na nossa faculdade, depois das férias da Páscoa, qual era a ordem que as fitas tinham na pasta (para não ter que explicar a mesma coisa 100 vezes); éramos nós que desfazíamos as trupes ao Dux Veteranorum (o Marralheiro); éramos nós que não desfazíamos as trupes só porque o Dux dizia para desfazer (eu), sem ter qualquer razão válida, dizendo-lhe que apresentasse queixa no Conselho de Veteranos; éramos nós que fazíamos serenatas por tudo e por nada, fosse por paixão, fosse por simples prazer de ver as meninas assomarem à janela; éramos nós que íamos fazer actuações da Tuna que fundámos – o Coral Quecofónico do Cifrão -, sem ensaios ou instrumentos em quantidade suficiente; éramos nós que fazíamos coisas porque “tinham pinta” e porque os antigos também o tinham feito; éramos nós que íamos com a bebedeira para o Penedo da Saudade, a sofrer de saudades de Coimbra por antecipação…
Enfim, fomos uma malta nova que ousou sonhar com uma Coimbra à antiga, que ousou viver um sonho, que decidiu viver Coimbra de uma maneira que achávamos – como dizia o Marralheiro há pouco tempo – “era a única maneira correcta de viver Coimbra e de ser feliz lá”.
E hoje somos nós que intervimos em blogs em defesa da Praxe; somos nós que continuamos a ir a actuações da Nossa Tuna sempre que podemos; somos nós que somos chamados, carinhosamente, por “vôvôs” pelos actuais tunos; somos nós que gostamos de estar com a malta estudante, deixando as “patroas” em casa para bebermos uns copos com a rapaziada, para nos sentirmos ainda um pouco estudantes de Coimbra; somos nós que continuamos a ajudar o Coral a manter o espírito o mais possível à antiga; somos nós que vamos contando histórias de Coimbra, da nossa faculdade, do Nosso Coral, ajudando assim a malta nova a ver qual era a orientação e o espírito no início da aventura musical, e não abandonando o Coral a uma orfandade que poderia ser fatal nos tempos que correm no ensino superior em Portugal.
No fundo, somos hoje uma malta que, lutando contra a irreversibilidade do tempo, tenta permanecer um pouco criança, sem descartar as responsabilidades que a idade e a vida nos trouxeram; fomos uma malta que, à imagem do grande boémio de Coimbra dos finais do séc. XIX e inícios do séc. XX – PAD ZÉ – tentou gozar a vida de estudante sem abdicar dos gozos e da “irresponsabilidade” a que a mocidade nos deu direito. E, tal como o PAD ZÉ, somos os que se pudéssemos não hesitaríamos em repetir tudo de novo. E ainda como o PAD ZÉ: oxalá o pudéssemos repetir!

29 Outubro 2008

Cantina do ISCAC

Aqui há uns anos falou-se, na minha faculdade, que queriam fechar a cantina do ISCAC. Aquilo foi uma revolta terrível para os estudantes, pois não tinham onde ir comer a preços sociais ou então tinham que se deslocar à cantina da Sereia, o que era longe, demorado e impossível de fazer no espaço de uma hora. Resolveu-se, então, fazer uma Reunião Geral de Alunos (RGA), reunião que foi organizada pelos “políticos” lá da faculdade, a malta que andava ali pelo carreirismo político. Eu, apesar de também sempre ter andado em listas e ter sido eleito para muitos “tachos”, desde Senado da Universidade, Assembleia da Universidade, Assembleia de Representantes da FEUC, ou Direcção Geral da AAC, nessa altura andava um pouco alheado dessas coisas, por isso decidi gozar um bocado com aquilo tudo, até porque eu implicava um bocado com essa malta que só faz as coisas para conseguir votos (lembro-me de ver gajos que não punham os pés na cantina do ISCAC e outros que só diziam mal do que se lá comia, andarem muito revoltados com o prometido encerramento da mesma e a participarem da organização da RGA). Para gozar então um bocado com a situação, cheguei a essa RGA antes da hora e sentei-me numa cadeira do palanque; quando a malta do “tacho” chegou, já eu lá estava sentado, o que os fez olhar para mim de lado, com uma cara tipo “que raio estás tu aqui a fazer, tu que não és cá dos nossos”, mas nenhum foi capaz de me dizer para sair dali – nem eu saía, isso é que era bom! Por isso a RGA começou comigo lá em cima, ao lado “deles”. Como aquilo estava a ser um bocado chato, deu-me para começar a rodar a cadeira (os gajos estavam fulos: eles a falarem e eu a dar voltas com a cadeira, a desestabilizar aquilo tudo); depois lembrei-me de virar a cadeira para a parede, ficando de costas para a assistência; passado um bocado, com um gesto de dedo, chamei um caloiro e mandei-o, baixinho, buscar-me uma garrafa de água e um copo, num tabuleiro; foi uma risota abafada quando o caloiro chegou, qual empregado de bar, com um tabuleirinho, um copo e uma garrafinha de água (nem faltou a conversa do costume: “o que é que se diz, caloiro?”; “obrigado, doutor…”). Entretanto, a reunião ia prosseguindo, eu ia bebendo a garrafa, ia olhando para o tecto com indiferença, fazendo de conta que não se estava ali a passar nada, até que ouço a criatura ao meu lado a dizer que tínhamos que tomar medidas, que o pessoal devia propor medidas para impedir que a cantina fechasse; voltei a chamar o caloiro e segredei-lhe algo ao ouvido; o caloiro voltou para a assistência e pediu a palavra; perguntaram-lhe, então, que medidas propunha ele, ao que o caloiro respondeu, instruído por mim: “as medidas que eu proponho são 15 metros por 20!”; foi uma gargalhada geral, os “tachistas” irritaram-se mas não quiseram transparecer a irritação e passaram a palavra a outro.
Em relação ao nome da cantina – cantina do ISCAC – este provém de a mesma se situar nas instalações onde, na altura em que entrei, existia o ISCAC. Nessa altura havia muita rivalidade entre a FEUC e o ISCAC, e isto provinha do facto de aquilo ser malta que tinha ido para lá porque não tinha entrado na FEUC, o que fazia deles (para além de serem, no geral, muito menos inteligentes do que nós) um bocado (muito) invejosos (apesar de todos – ou quase – dizerem que tinham ido para o ISCAC mesmo por ser aquilo que queriam), por isso às vezes as conversas azedavam entre nós e eles. Tinham a mania, nessas ocasiões, de dizer para não irmos à cantina, que era deles; a resposta pronta era que não, que não era deles, que era dos Serviços de Acção Social da Universidade de Coimbra (SASUC), por isso eles que deixassem de utilizar a nossa cantina (se bem me lembro, o Brandão até costumava dizer muitas vezes que ia comer à cantina dos serviços sociais da Universidade de Coimbra).
Quando o Marralheiro era primeiranista foi uma vez lá apanhado por um “iscaquiano” (nome que dávamos aos gajos), que o esteve para lá a praxar; a certa altura, o nosso herói lá descobriu, não sei como, que o gajo era do ISCAC, por isso resolveu vir-se embora e não obedecer mais, pois eles não nos podiam praxar nem nós a eles; o gajo ficou danado por o Marralheiro lhe estar a desobedecer e lá disse que ele tinha que obedecer a um dr. do ISCAC; “você não é Dr. agora, nem quando acabar o curso!”, respondeu-lhe o Marralheiro vindo-se embora, numa clara alusão àquilo ser um bacharelato.
Quando eu era primeiranista, fui certa vez almoçar com o meu padrinho, o Brandão, à cantina dos SASUC; ele chegou lá e poisou a pasta numa bancada grande que havia logo à entrada e onde hoje há um snack, tendo-me mandado buscar a comida para ele, enquanto se sentava ao pé de uns amigos que já lá estavam a almoçar; fui para a fila, que era longa e lá fiquei; quando chegou a minha vez de trazer o tabuleiro, saí da fila e voltei, de mãos a abanar para o pé do Brandão, que, admirado por após tanto tempo de espera, não lhe trazer a comida, perguntou-me pela dita.
- Não trouxe…
- Não trouxe?! Mas eu não o mandei trazer a comida?
- Mandou. Mas como o padrinho é semi puto e não está com a pasta, eu resolvi não obedecer.
Furioso, muito vermelho da humilhação de ter um caloiro a responder-lhe assim em frente aos amigos, lá foi ele ao fundo da cantina buscar a pasta e lá me mandou outra vez para a fila.
Uma vez fiz outra pior ao meu padrinho. Ele mandou-me, em frente aos amigos, fazê-lo rir.
- Caloiro, faça-me rir!
- O meu padrinho é uma besta! – respondi eu.
Perante o riso geral dos amigos dele, arregalou os olhos, atónito, enrubesceu, e disse:
- Caloiro, mas que conversa vem a ser esta?
- Então… o padrinho mandou-me fazê-lo rir, por isso eu disse um disparate muito grande, para que o padrinho se risse…
Lá se riu, vencido, mas a humilhaçãozinha lá ficou. Por isso no ano seguinte lá me fez uma espera à noite, numa trupe, para me vir às unhas!
Continuando com histórias relacionadas com a cantina do ISCAC, lembro-me de mandar, sempre que havia caloiros, levarem-me o tabuleiro; e quantas vezes era levar os tabuleiros da malta toda e outras tantas vezes era levá-los peça a peça… E com as mãos bem levantadas, mostrando a peça que levavam, como se de algo sagrado se tratasse… Certa vez a empregada que estava na recolha dos tabuleiros pôs-se a mandar vir, mas eu ignorei, mandei o atrapalhado caloiro continuar a fazer o trabalho tal como eu mandara; a mulher pôs-se a gritar e passou a ser conhecida, entre mim e os outros empregados, pela “minha amiga”. “Então, a minha amiga está cá hoje?”, ou “hoje a sua amiga está cá”…
Também na cantina do ISCAC era hábito eu mandar um caloiro fazer o “serviço de mesa do ISCAC”, que consistia em o caloiro pegar num carrinho que lá havia com azeite, sal, água, etc. e ir de mesa em mesa a dizer: “ Serviço de mesa da cantina do ISCAC; deseja alguma coisa?” e servir quem lhe pedisse algo que estava no carrinho.
Para terminar, contar a história que o Marralheiro considera que foi a maior humilhação que alguma vez lhe fizeram enquanto caloiro. Certa vez estávamos a almoçar os dois. De repente, aparece um cão vadio que por ali andava, a olhar para nós, cheio de fome e com olhar implorante. Com pena do animal, disse ao Marralheiro para dar uns restos ao cão, mas o cão, quando o Marralheiro se aproximou com a comida, fugiu; o pobre tentou várias vezes dar comida ao cão, que fugia sempre que ele lhe estendia o prato. Viro-me então para o Marralheiro e disse-lhe: “Não vê que o cão está com medo de si, caloiro, porque você é feio e cheira mal?! (caloiro é dois furos abaixo de cão: bicho, cão polícia e caloiro, é a hierarquia dos animais em ordem descendente); ponha-se lá de joelhos e peça ao cão para, por favor, vir comer”. E o Marralheiro assim fez, guardando esta entalada na garganta até hoje e atirando-ma à cara quando pode. Garanto-vos que se soubesse que isso lhe ia custar tanto fazer, que se soubesse que era uma coisa que o estava verdadeiramente a humilhar, não o teria feito.
As melhoras, Marralheiro!

03 Setembro 2008

Algumas considerações acerca do F.R.A.

Tive aqui há tempos uma discussão (no bom sentido da palavra), aqui no blog, acerca do F.R.A.
Na altura, o Sr. Pena louvou a correcção que fiz ao dito grito, corrigindo-me, no entanto, o facto de eu ter escrito “alequá” em vez de “aliquá”. Disse-lhe que tinha lido aquilo num qualquer livro e que lhe diria em que livro tinha lido esta palavra; tentando cumprir a palavra dada, fui em busca, na minha biblioteca de livros sobre Coimbra, do dito livro, mas não o encontrei (não sei onde li, mas tenho a certeza que o li – ainda não estou a ficar doido, acho eu!).
No entanto, e passando por cima da questão de a dita palavra se escrever com “i” ou com “e” – que considero de somenos importância, uma vez que foneticamente dizemos a mesma coisa – a verdade é que encontrei, num livro chamado “Coimbra… ontem! (1945-1951)”, de Octávio Abrunhosa, edição da Livraria Almedina, a seguinte nota de rodapé:

“O F.R.A. foi um grito criado pela Academia de Coimbra, cujo autor julgo ser desconhecido. Destinava-se, sobretudo, a assinalar momentos de grande regozijo e satisfação. Usurpado pelas demais Universidades do País, e não só, por falta de imaginação e criatividade, está transformado num grito da bicharada. Grita-se em qualquer lado e em quaisquer circunstâncias, desde casamentos a baptizados. Creio que, em Coimbra, continua a ser utilizado com uma certa parcimónia. Pena é que nem mesmo os estudantes de Coimbra de hoje saibam gritá-lo como deve ser. É que o F.R.A. deve ser gritado do seguinte modo:- “f-r-a, frá, f-r-e, fré, f-r-i, fri, f-r-o, fró, f-r-u, fru, frá, fré, fri, fró, fru, aliquá, quá, quá, aliquá, quá, quá, chiribiribi, tatá, tatá, chiribiribi, tatá, tatá, urrah, urrah, urrah!”.
Hoje, porém, quando chegam ao “aliquá”, em vez de o fazerem seguir de “quá”, “quá”, somente, gritam (mas mal) “aliquá”, “liquá”, “liquá”, “aliquá”, “liquá” “liquá”. Pobre F.R.A., por que bocas você anda!”

Atrever-me-ia a acrescentar que já nem “aliquá” se diz – agora é “arriquá” – e, lamentavelmente, informar o Dr. Octávio Abrunhosa que ele se enganou numa coisa nisto que disse: não, em Coimbra este grito também já não é utilizado com nenhuma parcimónia. Já para não falar que agora, sem que eu consiga vislumbrar de onde veio tamanha idiotice, todos gritam:
“EEEEEEEEEEEEEEEEEF.R.UUUUUUUU”; parecem ovelhas a balir! (calma, calma! Ainda há-de chegar o tempo em que gritarão “I-Ó, I-Ó”)
No entanto, o que me repugna ainda mais, é aquelas gajas (ou gajos) que de espírito académico não têm nem uma unha, para se mostrarem diante dos papás que incham de orgulho com as proezas e espírito académicos das filhas(os), gritam: “Então com todo o espírito académico, aqui sai um F.R.A.”. É do que mais degradantemente ridículo pode existir: gente que, ao longo de 4 ou 5 anos de Universidade de Coimbra, usa a capa e batina umas 40 ou 50 vezes (e muitas delas é usar no jantar de curso e ir trocar depois, pois “não é prático”; ou usar no cortejo e ir trocar a roupa antes de ir ao Parque), ou andar – como se vê agora – com a cartola e a bengala e à futrica, andar a gritar F.R.A.’s com “todo o espírito académico”! Sinceramente, era partir-lhes o focinho todo!

21 Agosto 2008

Histórias com os copos

Nós bebíamos tanto! Nem era uma questão de beber muito (que bebíamos) era uma questão de bebermos muitas vezes. E sempre acabava por acontecer uma ou outra história engraçada, embora a maior parte já esteja esquecida.
Certa vez, ao sairmos do Convénus Mustinto (provavelmente após uma Festa do Litro y Meio), ao chegar à rua, tive uma sensação estranha: que a rua estava a descer, em vez de estar a subir. Toda a gente se riu, mas eu insisti, rua acima, que a rua estava a descer! Não é que me incomodasse, pois sempre era melhor descer do que subir, mas ninguém me tira, ainda hoje, que naquele dia a rua tinha mudado de inclinação!
Outra vez, ao sair do Convénus, estava, não sei por alma de quem, uma excursão de ingleses por ali. Como mais à frente estava estacionado um BMW, resolvi dirigir-me ao carro, com uma daquelas chaves antigas, enormes, amarelas, na mão e dizer bem alto “it’ s my car, and it’ s my car’ s key”. Todos se riram, ingleses e pessoal, mas saiu-me de repente e o carro por lá ficou e nós lá fomos à nossa vida a pé, como sempre naquela altura.
Outra ocasião, a bebedeira foi tal que, já para o fim, passámos na Praça da República, no Cartola (ainda não podia ser muito tarde, pois o Cartola estava aberto) e o Salgueiro viu alguém conhecido, com quem foi falar; durante o tempo em que o Salgueiro estava lá ao paleio, deu-me vontade de vomitar, pelo que decidi vomitar mesmo ali, perto dos semáforos, em frente ao Gil Vicente; mas para o que me é que havia de dar: pôr-me de gatas, cotovelos no chão e braços para a frente; ora, quando o vomitado começou a sair, parecia que nunca mais queria parar, pelo que eu, desesperado e sem me conseguir levantar ou parar o vómito, vi o vomitado amontoar-se, vi o monte de vomitado alargar e vi o vomitado começar a entrar-me para as mangas da batina, sem poder fazer nada para o impedir… Quando o pessoal chegou ao pé de mim, fartaram-se de rir com a situação, o que me fez abrir os braços e abraçar o Salgueiro que, desesperado, só gritava: “não me abraces, não me abraces!”. Coitado, fui mesmo mauzinho para ele, mas nem mesmo sei como consegui resolver a situação em casa, sem a minha tia dar por ela.
Outra altura, e inspirados em livros de memórias de antigos estudantes, resolvemos “comemorar vitórias sobre a ciência”. Então, púnhamo-nos a estudar matemática e a resolver exercícios; de cada vez que alguém conseguia resolver um exercício, parávamos todos de estudar e bebíamos um copo (de uma qualquer bebida alcoólica) para comemorarmos a vitória que um de nós tinha obtido sobre a ciência! Era até já ninguém conseguir resolver exercícios, de tão bêbados que estávamos, por isso largávamos os estudos, que nos estavam a prejudicar as comemorações!
Outra vez, resolvemos ir fazer uma trupe. Já não me lembro se a noite correu bem ou mal, mas sei que ali ao pé do Liceu José Falcão, ao cimo das escadas que sobem do jardim fronteiro ao liceu, apanhámos um semi puto fora de horas; o Marralheiro decidiu assustar o semi puto, por isso começou lá com a conversa de que ele estava fora de horas, ao que o semi reconheceu ser verdade; depois começou a perguntar-lhe se ele tinha lido o último “Decretus” do Conselho de Veteranos, ao que ele admitiu que não; “então”, continuou o Marralheiro “não sabe que agora os semi putos também são rapados após as X horas”; que não, que não sabia, dizia o semi puto, mas o Marralheiro logo lhe foi dizendo que o facto de ele não saber não queria dizer que lhe não fosse aplicada a sanção respectiva, ao que o semi puto não se opôs; lá se pôs de joelhos, a mando do Marralheiro, à espera da pesada pena, ao que eu, vendo tanta alarvidade por parte do semi, e estando-me a dar uma volta na tripa, lhe ponho o cu à frente da cara e zás, peido na tromba! Foi uma risota geral, após o que lá mandámos o semi levantar-se, dizendo-lhe se ela achava exequível que tivesse sido decretado o rapanço a um doutor por ele estar fora de horas!
Estou-me agora a lembrar de outra grande bebedeira que apanhámos no Pinto e, já depois de este fechar, rumámos aos terraços da Faculdade de Farmácia (como tantas vezes fazíamos) para fazermos os nossos “saraus”. Só que, naquela noite, ao passarmos em frente ao Museu Machado de Castro, vimos que as luzes estavam acesas, pelo que decidimos averiguar do que se tratava… Ao entrarmos, estavam uns senhores mesmo a acabar de cantar a última música e estavam umas mesas postas com muitos salgados. Como é óbvio, decidimos ficar por ali a comer “à pato”; só que eu lembrei-me que, no dia seguinte, ia para Tondela ver um campeonato de Karaté e ainda não tinha almoço… Por isso, comecei a passar pelas mesas a recolher rissol aqui, rissol ali, e a ir para um sítio mais protegido embrulhar os rissóis em guardanapos e a meter para o bolso. Andava eu nesta actividade quando, ao passar junto do Marralheiro, ouço-o perguntar a um empregado “a que se devia aquilo tudo?”. Como aquilo era para quem tinha ido assistir ao espectáculo e para os cantores, o empregado perguntou-lhe se ele não sabia quem tinha vindo ouvir; mas eu, por acaso, conhecia lá um senhor que era dos Antigos Orfeonistas da Universidade de Coimbra, e meti-me na conversa, dizendo que era o dito coro, calculando que seriam eles; “então se sabem”, respondeu o homem, “para que é que estão a perguntar?”; “era para ver se o senhor sabia!”, respondi. Nessa noite fartámo-nos de beber à borla bebidas a que não estávamos habituados por serem caras, fartámo-nos de comer, e ainda levei para casa 24 rissóis!
De uma das muitas vezes que íamos aos terraços da faculdade de farmácia, com o nosso traçadinho, fazer os nossos saraus, ao chegarmos lá, noto, de repente, crianças a gatinhar e a olhar para nós, pelos telhados da faculdade de Farmácia. Não resisti a soltar, espontaneamente: “olha, duendes…”. Mas não era eu que falava, era o vinho!
Lembrei-me agora também de uma história que se passou na Latada, no ano em que o Marralheiro entrou. Nesse dia lá fomos nós no cortejo e, não sei como foi aquilo, o Brandão apanhou uma grande bebedeira. No fim do cortejo, não sei vindos de onde, apareceram os pais do Marralheiro e foram connosco ao Convénus Mustinto (a nossa sede) para irmos meter as nossas coisas. Estava para lá eu a mostrar a casa velha e sem luz aos pais do Marralheiro, a explicar que nos reuníamos ali a discutir os assuntos da Praxe, da faculdade, a conviver, etc, quando a mãe do Marralheiro, ouvindo com atenção, acabou por acrescentar “… a comer e a beber…”; resposta do Brandão: “A comer e a beber não: a beber e a beber!”.

22 Julho 2008

O Margaças

O Margaças era um tipo meio maluco, de engenharia informática, que conhecemos por ser amigo de infância do Marralheiro. Também era do concelho do Carregal do Sal, mas, ao contrário do Marralheiro, não vinha da sede de concelho, vinha de Cabanas de Viriato. Era um gajo porreiro, mas quando bebia ficava completamente transtornado, não sabia o que fazia. Certa vez, com a bebedeira, pôs-se a correr na beira do depósito de água dos Olivais, na altura em que o pessoal andava com a mania de lá ir a cima (eu não, pois tenho vertigens e não era capaz). Outra vez, com a bebedeira, e sendo caloiro, lembrou-se de dizer que queria rapar e praxar caloiros; estávamos à porta do café Madeira e ia um velhote a passar; logo o Margaças o agarrou pelo braço (sem ser à bruta) e lhe perguntou: “O Sr. é caloiro?”; resposta do senhor: “Eu? Eu já sou velhote…”.
Mas as melhores (ou piores) do Margaças, foram outras.
O Margaças era muitas vezes convidado para as nossas Festas do Litro Y Meio, e ia sempre que podia. Certa vez, já com uma bebedeira monstra, deu-lhe para saltar para o telhado da vizinha do lado e pôr-se a correr pelo telhado fora; a mulher veio cá fora e desatou a berrar com ele e a dizer que ia fazer queixa à minha avó (que era a senhoria), que já não bastava estarmos sempre a vomitar para o telhado dela... Naquele dia a festa acabou e fomos logo todos embora dali o mais depressa possível. Passados dois ou três dias (para não levantar suspeitas), fui a casa da senhora, perguntar-lhe se ela tinha ouvido ali barulho nos últimos tempos; a mulher começou a mandar vir, a dizer que não havia direito de se porem a correr em cima do telhado dela, que ia fazer queixa ao meu pai e à minha avó, e o diabo a sete; fiz-me surpreendido, chocado mesmo com o que se passara; disse-lhe que já não ia ali há algum tempo e que, naquele dia, tinha lá ido e me tinha deparado com a porta arrombada, com a casa cheia de garrafas vazias, que alguém devia ter entrado pelo muro, me tinha arrombado a porta e que tinha entrado lá em casa só fazendo porcaria, mas nem me tinha passado pela cabeça que lhe tinham saltado para o telhado; a velhota acreditou em mim, pediu-me desculpa e acabou por não fazer queixa a ninguém!
Mas a melhor do Margaças foi a nossa ida ao galinheiro, ao fundo da rua Sá Carneiro, que, naquele tempo, não tinha saída e, ao fundo, havia umas casitas velhas com um galinheiro que há muito tempo namorávamos, na nossa tentativa de reviver, em plenos anos 90 do séc. XX, o que os antigos estudantes tinham vivido décadas atrás…
Então, numa noite, decidimos ir lá ao galinheiro. Mas como o Margaças era um bocado mais maluco que nós e não valia a pena irmos todos para dentro do galinheiro, pois até podia atrapalhar a fuga, foi lá só o Margaças, tendo eu e o Marralheiro ficado à espera; o galinheiro era daqueles que tinha uma parte descoberta e ficava num sitio mais baixo do que a rua, por isso deu para ver o Margaças entrar no galinheiro, com muito cuidado, e deu para ver um ganso no meio do espaço descoberto; quando o Margaças lá entrou, o estúpido do ganso começou a fazer barulho e eu vejo o gajo, de repente, deitar ao mão ao pescoço do ganso e preparar-se para sair, com o ganso agarrado pelo pescoço e a fazer uma barulheira desgraçada; nesta altura, vejo o dono do galinheiro a aparecer e a gritar qualquer coisa. Só que era tarde de mais, o Margaças já subia em direcção à rua, com o ganso preso pelo pescoço, a berrar. Nesta altura, eu e o Marralheiro desatámos a subir a rua a correr, com o Margaças atrás. Ao chegar ao cimo da rua parámos e, passado pouco tempo, chega o Margaças, sem o ganso!
- Então, Margaças, que é do ganso?
- Larguei-o! O gajo não parava de fazer barulho pela rua acima e o homem estava para lá aos berros e eu tive medo e larguei o ganso no meio da rua!
Triste desenlace, o desta história. E bastante frustrante, pois o homem jamais viria a correr em pijama pela rua acima e, mesmo que viesse, jamais conseguiria apanhar-nos, calçado com chinelos, a correr atrás de 3 gajos entre os 19 e os 21 anos, cheios de força. E pior, eu já saboreava de antemão um arroz de ganso, enquanto fugia pela rua acima!